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Horríssono



O chá acabou cedo. Nem são cinco.
Deveras foste audacioso em colocar o sangue das cobras nele. Nem repulsa senti e creio que logo estarei em paz. Ignore meus hábitos, também meus hálitos. Falo demais, sei bem.
Não se enfureça com minha frieza, também não se intimide com meu deboche. Eu sou só um habitante do mundo real citando frases de Sherlock Holmes a cada dois minutos. Ignore meus cachimbos baratos, mas guarde os caros. Ou doe-os!
Meus sapatos, quero-os na vitrine de alguma loja, mas que seja proibido comprá-los. Ao contrário de minhas gravatas, por elas tenho apreço imenso e ficariam lindas no pescoço de alguém. O carro? Não sei o que fazer do carro...
Sobre as flores que deixei morrer? Poderia enterrá-las comigo. Nada como a flor murcha para representar a morte. Interessante! Vou querer uma bandeira no caixão. Mas não, quero que me cremem. Ou não, larguem no mar. Ou ainda não... O carro? Não sei o que fazer do carro…
Sim, a casa. Pinte o alpendre e monte um cassino na sala de jantar. Faça dos dois quartos um só, leve os crucifixos para o orfanato da rua ao lado e deixe todas as janelas sempre abertas. Não esqueça de sempre ferver o chá, mas não vermelho, o verde, de ervas. O vermelho, esqueça-o e não o toque, nunca o toque. Porém o carro? Não sei o que fazer do carro.
Serei solidário. Meus diários, pode lê-los a vontade eterna. Pode publicá-los, vai ganhar dinheiro. Ou  pode queimá-los, como preferir. Nada de lembranças minhas vai trazer o bem-estar de volta. Aliás, ele nunca esteve aqui para voltar. Este bem-estar… o que tralhas como as minhas poderiam causar neste mundo atrofiado. E quem dera que elas salvassem vidas, ou libertassem outras.
Se quiser queimar tudo e desapegar das minhas coisas, está de bom gosto. Não esqueça de me queimar junto com tudo, menos o carro.
O carro? Realmente não sei o que fazer do carro. Eu não tenho carro!

I fucking love tea









Acho que estou viciada em chá.
Há tempos atrás, eu gostava do saudoso café. Enchia os olhos, atiçava o paladar, o amargo e negro líquido energético. De lá pra cá, desapeguei dele. Nunca precisei de café para manter-me acordada, e o chá é um bom companheiro.
Não é de todo ruim, mas preocupante eu diria. Vícios são preocupantes.
Já fumei bastante, mais do que deveria, na realidade. O cigarro não complicou em nada meu organismo, até então. Isso porque nunca me senti viciada, por assim dizer.
Entretanto, agora parece difícil e diferente. Eu não passo um dia sem chá. Se tento, meu corpo treme, minhas articulações doem, eu suo frio.
Não é o fato de ser chá o meu vício, mas o fato de ter um vício me perturba. Algo em mim está faltando, e eu tento repor com chá…

Relato Íntimo


Olhei pra o tempo. Pensei em tudo que é possível viver, dei-me conta que estava destinada à desgraça de viver com a presença da morte constante,a morte dos momentos bons, a morte da minha voz, a morte de quem eu amo, o falecimento progressivo. Estava fadada à nostalgia. Lembrei-me de quando eu andava por uma estradinha perdida que ligava duas cidades serranas. Havia chovido e tudo estava tomado por um ar inebriante, um odor de pés de bananeira e marmeleiro chegava às narinas, plantas verdíssimas orvalhadas compunham a paisagem, era gostoso de ver. Na minha caminhada avistei uma espécie de pequeno castelo branco, aquilo me despertou curiosidade tremenda. Subi as escadas deterioradas, cheias de galhos e flores molhadas. Os portões estavam quebrados, lá dentro, tudo abandonado. Senti aquela coisa estranha, coisa que se sente quando acha-se algo antigo, perdido, fiquei imaginando o aconteceu naquele local há anos atrás, as pessoas que por lá passaram, agora palmos abaixo do chão.Da sacada observei uma construção antiga, Jesus  crucificado , com o rosto tomado de lodo esverdeado e a expressão melancólica, colunas no estilo romano , em uma placa três retratos antiguíssimo , sob moldura clássica e bronzeada.Atravessei a rua e quando avistei de perto vi que tratava-se de um mausoléu construído em 1941. Lá estava o casal Arruda , primeiro morrera a mulher , dias depois , sem motivo aparente , o marido, e lá foram os dois enterrados.
Acontece que hoje, me veio à mente tanta coisa. Na verdade, pensei nos meus romances que nunca acabavam, na prisão que vivemos, em como o mundo castiga a gente. Precisei deitar a cabeça no travesseiro e chorar feito criança, não aconteceu nem um evento que me abalasse especificadamente, mas algo me dói fundo. Por impulso, senti necessidade de uma dor física, e comecei a morder o lábio superior e a arranhar as cochas. Foi dor, prazer, tristeza. Eu ouvia uma música que falava de desespero,  a voz doce de Morrissey cantava:

And I know it's over - still I cling
I don't know where else I can go
Over and over and over and over
Over and over…
I know it's over
And it never really began
But in my heart it was so real

Senti-me exatamente assim,
sabendo que acabava, acabava, acabava… Cacos que refletiam um ser que carregava todas as mazelas em si. Tomei toda a cama para mim e joguei os cigarros ao chão.

It's so easy to laugh
It's so easy to hate
It takes strength to be gentle and kind
Over, over, over, over

Começou a tocar alto. Eu já havia ouvido aquela canção. De repente senti-me flutuar em um lago, um lago no meio de um jardim de Monet. Senti-me moçoila nos anos 30, com toda a pureza e inocência que uma moçoila de 30 carrega no coração. E flutuei por tempos, até que resolvi sair e à beira do lago estavam àqueles sapatinhos de que eu tanto gostava. Bebi uma água límpida em um chafariz disposto em frente a uma casa de portão alto. Tudo como se fosse uma tela de Monet. E senti-me tão bem. E senti a recompensa do sofrimento.
Mas sai do quadro, levantei, olhei no espelho e ao me ver, comecei a chorar novamente. Passou por meu pensamento a imagem do que eu seria daqui a alguns anos, provavelmente o mesmo do que eu sou agora, mas já cansada, acabada, falida. Não deixei o pensamento me assombrar. Entrei pra debaixo do chuveiro, agora sob a melodia de
Morrissey, senti a água escorrendo pela minha face. Morrissey... está entranhado em mim, como o fedor humano.  Não, não posso compará-lo a isto. Como o frescor feminino, sim.

Love is Natural and Real
But not for you, my love
Not tonight, my love
Love is Natural and Real
But not for such as you and I, my love
Oh Mother, I can feel the soil falling over my head

Lá fora, chamavam-me, ignorei. Deixei o chuveiro gotejar e acompanhei o caminho da gota até chegar a minha pele e
tocá-la em arrepio. Dançava a melodia suave e puramente britânica. De uma hora pra outra o pingo engrossou e agrediu-me. Vi que era hora de parar. Nunca acontecera aquilo comigo. Momentos de “crise” costumam perdurar-se, transformar-se em ciclos que não consigo sair. Mas um momento de tranquilidade e êxtase como esse era raro. Senti cada parte do meu corpo. Senti minha mente livre.
Desejei viver em um tempo diferente, cercada por coisas simples, e amar alguém [e principalmente permitir-me]. Havia vivido uma loucura, ou um nirvana, algo que não sei explicar, apenas descrever.
Sinto estar tomando um veneno lento. Ou um remédio de efeito passageiro.

possesive pain



É preciso termos alguém nosso até a última gota de sangue?
Continua o medo de partir o que ainda não está inteiro. É tão fácil partir coisas e pessoas. Como as coisas, basta largar. Existe uma força de gravidade específica para as almas que, desamparadas, se estilhaçam.
Partir é fácil.
Depois do coração ceder, tudo se desfaz. Não há como agarrar pedaços de pele e mantê-los juntos. Não temos mãos para tanto, o pó passa nos intervalos dos dedos. Sai o sangue, suja a cama, invade o olhar. Chora, se conseguires.  Dizem que faz bem, mas não é tão fácil como parece.
Não cries expectativas. Vive só o agora e não penses no que vem, porque pode não vir nada. E depois, seguem-se mais estilhaços e dor e o sangue que se espalha por ti e à tua volta. Não queres que te processem por contaminares a rua com o que não consegues guardar, pois não?

se eu faria? não!

Recuar no tempo, repensar nas consequências dos meus atos e tomar uma atitude diferente?
Não o faria! Porque a vida ensina-nos lições importantes, molda a nossa forma de estar às necessidades da vida, habilita-nos de uma carapaça que nos protege, tanto quanto possível, e nos tornar mais seguros para enfrentar a realidade.
Esquecer o passado, passar uma borracha pelo que já vivi e projectar uma tábua rasa para o futuro?
Não o faria! Porque o passado faz parte daquilo que somos e com o mesmo temos de aprender a viver todos os dias, tentando não esquecer os seus ensinamentos.
Deixar de sonhar para ser mais feliz?
Não o faria! Porque o sonho faz-nos mexer, torna-nos ativos e comanda cada ato e palavra que produzimos.
Amarrar-me a alguém para ser menos infeliz?
Não o faria! Porque não sou parte ou metade, sou todo e meu todo não precisa de acompanhado, de se sentir apoiado ou dependente, ainda que para isso a minha felicidade seja diminuída.
Parar de escrever para sofrer menos ou ter menos trabalho?
Não o faria! Porque a escrita me completa, preenche cada poro que respira, porque sem escrever eu sou nada e junto das letras o mundo é meu.
Não parar de sorrir para parecer mais feliz?
Não o faria! Porque a nossa existência é equilibrada e construída a partir também das nossas verdades. E ninguém é feliz sempre.
Escamotear os meus princípios e valores para conquistar tudo o que ensejo?
Eu não o faria! Porque prefiro deter apenas uma ínfima parte dos meus sonhos concretizados do que me trair enquanto pessoa.
Com um simples passo de magia tornar a minha vida melhor?
Não o faria! Porque o desafio do dia-a-dia, a conquista do amor, a valorização da amizade ou a persecução do êxito profissional, têm muito mais valor, são mais ricos e preenchem-nos completamente quando conquistados com o nosso suor, sofrimento e esforço. Se eu pudesse, desenhava e coloria a minha vida a pincel tal qual ela tem sido até agora.

 
"Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo." - Fernando Pessoa

ele

Como completo hoje meus 103 anos, decidi varrer minha vida. Sabe, tirar o pó, esvaziar as gavetas, queimar os arquivos e chamar o padre para a unção final. Não por nada, mas acho que posso entrar em óbito a qualquer momento. Não por nada, mas eu não acharia ruim. Só que… eu queria falar dele. Meio que ele, é importante página no livro de minha vida. E digamos que tirando o prefácio e o epílogo, ele esteja em todos os outros capítulos, sem nem perceber. Não tem nada a ver com romance, nem jóias e Titanic, só tem a ver com ele.


Ele era breve e pouco insano, açúcar alto no sangue e depressão corrente em cada linfócito.
Ele tinha os olhos tristes também.
Ele tinha classe de vagabundo, mas quem teria moral para destratar?
Ele roubava as córneas alheias e delas fazia um coração.
Ele também tinha um coração, de vida latente, sangue pulsante e vontade eterna. Ele tinha um coração esquecido, que nunca alguém foi capaz de conhecer.
Ele era Chaplin e mais nada necessito dizer.

Vontade?


A vontade de gritar para que me ouçam e me entendam é enorme.
De ser reconhecido não apenas pelo que se veste, e sim pelo que se é.
Vontade de quebrar tudo e dizer a todos que ser mais um modelinho que age pelos outros não é ser legal.
Vontade de ser o que se é de verdade.
Vontade de poder agir como quiser.
Vontade de poder viver.
De poder gritar ao mundo que eu vivo. Just it!

Medusa

 
As pessoas não têm noção do que dizem para mim. Não que eu seja vilã, mas existe crueza e malandragem no meu sangue. Não sou a pior pessoa do mundo, mas sou uma das piores. Como minha mãe costuma dizer, eu sou quase ruim.
Sabendo disso, você, pessoa. Deveria ter cuidado com o que fala para mim, de mim, ou até mesmo o que me obriga a ler. Equivoco é que, eu sendo a víbora que sou, leio, ouço, e engulo porque quero. Inevitavelmente, a ira alheia me fortalece.
Eu posso ser como Medusa, mas jamais teria a inocência de Jacinto. Sendo eu, gananciosa e arrogante como Narciso, acha que eu pularia no Hades, no Nilo ou no Danúbio? Jamais seria capaz de perder minha pura essência. Por ninguém, talvez por Deus… ou nem ele…
Premissa de toda a gente que me ama ou me odeia: Uma metade sua sempre vai me amar independentemente do que eu faça, a outra vai querer me matar a cada segundo e instante. Sendo assim, me tenha pena! Ou nem isso…
A sua insistência é tola demais e eu já estou cansada de dar atenção. Por mais que tenha sido divertido até o atual momento, eu ando descompassada, cansada, com sono e viciada em chá de frutas vermelhas. Sabe, me lembra sangue…
E ainda que eu não seja a vilã, contorne bem sua língua para me dizer qualquer coisa. Eu não sou fofoqueira, jamais me apeteceu o chisme. No entanto, eu gosto de usufruir da maldade. Repito, a ira alheia me fortalece, e eu como boa bruxa má, sei fazer por merecer. Quando me dita algum veneno, não espere que eu seja justa e em principal…
Não me condene quando eu falo o que penso. As pessoas exigem sinceridade, mas ficam desconcertadas quando falo a verdade. E eu pergunto: QUAL É A MORAL? A vida é curta demais para perder tempo com gente filha da puta! E eu aprendi isso, há um tempão atrás. Portanto, um aviso, quase conselho… cuidado com o que me dizes.

Em verdade, em verdade vos digo. Não posso dizer que guardo rancor. Mas posso afirmar que guardo nomes!