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spiritus deserta



Aquelas ruas caiadas do pó que o sol derrama, e o sol queimado, a desculpar a indecência das sombras. Lembro-me do sabor do ar nas minhas pálpebras, a umidade meio cheia, meio vazia, e o bater terno do meu coração, por saber que apesar de não ser casa, marquei.
 Há algo sobre egocentrismo em mim quando debato esta fúria saudosista nos confins da minha alma, há um crescente ardor nos olhos por sentir a mortalidade dentro das entranhas, o mesmo ardor que o meu físico contesta, e que me faz tossir argumentos de que a imbecilidade é ingrata, tanto quanto a fé ou o destino.
Saber que o dia pesa mais que a noite, pela constante mutação das rotinas humanas, devassas e anárquicas, é constrangedor no sentido em que algo me tira o sono, e que isso é literalmente humano. Não o digo porém por falta de fé no humano; talvez me desgrace saber que os créditos que tenho em argumentação impugnem permanentemente as minhas fés. Mas de noite o mundo dorme, e eu no meu noto que, aparte disso, os dias são iguais às noites, quase tão orgânicas quanto as rotinas, quantos as mutações, quanto o humano.
E vou tentando demonstrar ao meu próprio corpo que não sou se não mais do mesmo; o meu mundo parte-se em esferas ridículas, em rituais recortados, e sou sugado por um mesmo rol de diários semelhantes. Sou mortal, e isso enfraquece-me a alma. Mesmo depois de todos estes capítulos semi abertos, quase fechados, os meus sonhos escalam as minhas bossas, vão sendo sonhos para além das opções, das leituras, das escrituras. Mesmo depois do fim de algo, do passado irreparável, vem a morte, e vem o leito, no qual terei de me deitar, mesmo sem ter sono.

em estrada


Ele encontrava-se parado, imóvel em um caminho sem fim. Não sabia para onde ir.
As trilhas eram abundantes, mas mesmo ainda que tentasse não poderia distinguir nenhuma. Então, começou a pensar, e a questionar-se.
Já havia pensado, alguma vez, que uma decisão sem importância poderia mudar totalmente o rumo de sua vida? Não conseguia encontrar uma resposta. Ou por acaso não a queria encontrar.
Começou a caminhar, estava sozinho, não havia ninguém ao redor e isso não dava ânimos, queria despertar em uma manhã e dizer: Não desejo coisa alguma, vivo segundo o que quero, o que amo, o que digo. Busco essa suspeita de entusiasmo, esse ânimo de emoção, cujo qual, não se vive sem.
Era assim, e ele sabia. Mas era inútil o seguir procurando. Não encontraria!
Algo o impedia de seguir sua busca, estava preso. Na trilha?
Não! Estava preso em si mesmo, impedia-se de progredir, mas, todavia, parecia dar-se conta pouco a pouco. E pausadamente via os caminhos da trilha se abrirem.
Tomou sua rota e seguira caminhando…

Multiplique isto pelo infinito, leve-o até o fim da eternidade e terá apenas uma noção do que eu falo.

bons ares

Fiquei sabendo do acidente nos subtes de minha cidade favorita. Deu saudades de lá... Desculpem a minha indelicadeza, mas depois da morte do meu tio, eu pouco me importo com quem mais morre, quais tragédias acontecem. Sim, podem me ofender e me xingar eu não ligo!
Saudades de Buenos Aires foi tudo o que senti. Lá, foi o único lugar em que eu me senti em casa neste mundo, além da minha casa. Nem na cidade vizinha eu me sinto em casa, mas lá... Puxa vida! Buenos Aires, tem bons ares. Ela é diferente, é normal. Os argentinos não te tratam como turistas, não vêm com sorrisinhos, nem com aquele charme todo só porque tu tá pagando. Porra, só eu acho isso legal?
Passar férias em um lugar em que todo mundo te trata como te tratam na tua casa. Isso é bacana! Eu acho bacana. Nunca fui fã do estrelismo, eu gosto do sossego, e as férias em Buenos Aires foram as únicas que me proporcionaram isso. Um dia, ainda volto pra lá, verdadeira cidade maravilhosa.


No llores por mí Argentina...
Voy a volver pronto.