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Verbum


 
Gosto muito de ir ao sentido das palavras, na poesia, na literatura, até mesmo na simples conversa. São muitas as vezes em que dou voltas às palavras, à sua origem e ao seu significado. Muitas vezes cheguei a dizer aos meus alunos para, em caso de dúvida sobre o sentido da frase, colocarem perguntas à(s) palavra(s). Se é uma negação, uma afirmação, se é composta e de que forma. A beleza está em dar corpo à racionalidade. 
Nós, humanos, temos a tendência em colocarmo-nos, ou apenas no lado da razão, ou somente no lado do corpo (os sentimentos, emoções, sensibilidade). Parece-me que a grandeza reside na capacidade em articular ambas. Que tem a sua dificuldade. A nossa parte animal impele à reação imediata: chama-se sentido de sobrevivência. Quando se centra no racional, pode-se ficar num intelectualismo perigoso, que esquece o quotidiano, o toque do sentir. Dar corpo à palavra poderia ser essa capacidade de articulação dessas duas dimensões tão nossas. A palavra é a razão, o seu sentido mais profundo em nós seria a encarnação da mesma. Também por isso dou muitas voltas ao prólogo. A Palavra que constrói a morada carnal na humanidade. É o contínuo jogo entre a razão e os sentimentos. 
O Humano é chamado à Palavra e ao Abraço.

No entanto, uma coisa necessito dizer... nunca deveríamos ter abandonado o latim. "Adunasse lingua". Em suma, vou debutar todos os posts deste mês em latim... ou quase todos.

Alati


Ele apenas pisou no chão com seus pés descalços. As sandálias nas mãos, voaram junto da areia levantada. O calor do sol era ameno, o tremor do vento era agressivo. E ele apenas via o amarelo, como se o amor fosse tudo.
Não poder-se-ia dizer que ele estava triste. Seus últimos suspiros eram equivalentes a um trilhão de felicidade. Sua sabedoria, era a riqueza ímpar do universo, e seus olhos tinham o carinho velado, como se o amor fosse tudo.
De novo ele purificava, andarilhava encubado em sua humildade. Nas ruas desertas, na fome e na guerra. Ele batalhou com sua arma maior. Se criou do mundo distraído, da ordem mestra deixada, para que o amor fosse tudo.
Alguns o chamavam de Horus, outros de Cristo, alguns também de aberração… entretanto, ele viveu, e morreu alado. Como se o amor fosse tudo. E para mim, bastou...

O amor era o fogo, que ardia sem se ver; a ferida que doía sem sentir; era o contentamento entristecido; a dor desatinada sem doer. Mas ainda que falássemos a língua dos homens, dos anjos, sem amor, nada seríamos.

P.s: Eu nunca havia escrito nada sobre Jesus Cristo, hoje, por algum motivo que desconheço, senti necessidade. Sei lá, eu só sinto vontade de ter vivido com ele na época em que ele estava por aqui, ter aprendido com ele, um conhecimento maior do que eu terei certamente, mesmo que estude toda a vida... algumas coisas da minha cabeça (leia-se, do meu coração).

spiritus deserta



Aquelas ruas caiadas do pó que o sol derrama, e o sol queimado, a desculpar a indecência das sombras. Lembro-me do sabor do ar nas minhas pálpebras, a umidade meio cheia, meio vazia, e o bater terno do meu coração, por saber que apesar de não ser casa, marquei.
 Há algo sobre egocentrismo em mim quando debato esta fúria saudosista nos confins da minha alma, há um crescente ardor nos olhos por sentir a mortalidade dentro das entranhas, o mesmo ardor que o meu físico contesta, e que me faz tossir argumentos de que a imbecilidade é ingrata, tanto quanto a fé ou o destino.
Saber que o dia pesa mais que a noite, pela constante mutação das rotinas humanas, devassas e anárquicas, é constrangedor no sentido em que algo me tira o sono, e que isso é literalmente humano. Não o digo porém por falta de fé no humano; talvez me desgrace saber que os créditos que tenho em argumentação impugnem permanentemente as minhas fés. Mas de noite o mundo dorme, e eu no meu noto que, aparte disso, os dias são iguais às noites, quase tão orgânicas quanto as rotinas, quantos as mutações, quanto o humano.
E vou tentando demonstrar ao meu próprio corpo que não sou se não mais do mesmo; o meu mundo parte-se em esferas ridículas, em rituais recortados, e sou sugado por um mesmo rol de diários semelhantes. Sou mortal, e isso enfraquece-me a alma. Mesmo depois de todos estes capítulos semi abertos, quase fechados, os meus sonhos escalam as minhas bossas, vão sendo sonhos para além das opções, das leituras, das escrituras. Mesmo depois do fim de algo, do passado irreparável, vem a morte, e vem o leito, no qual terei de me deitar, mesmo sem ter sono.