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Oh, sometimes the blues is just a passing bird


Fecho-me na escuridão sepultada do abandono, da morte, da não-existência. Há vulgaridade nos sonhos que tenho, pois eles não são menos nem mais que os sonhos do mundo, e dos outros. Ser-se somente arquiteto dos próprios sonhos, enclausura de certa forma a alma. Com a cabeça sufocada em camas de dossel, os limites que se põe nas paisagens que a mente cria, estilhaçam a vontade de viver do sonho, e aos poucos a vontade de velar por ele. E assim, o querer, à sua semelhança perde o sentido, e estagna no longínquo do sonho e da sonolência.

A minha veneração da vida com timidez, é também fascínio pela morte. O sonho vem somente abalar a realidade devassa, estes passos dados em redor de escadotes em circos de portas mal fechadas. Sonhar tornou-se banal, na vertigem de uma sociedade que não sabe distinguir a força do sonho, e a força do poder. Para outros sonhar é perda de tempo; ler jornais, participar em obras de caridade, filantropismo, e rituais saudáveis fazem mais sentido. E neles nada há de sonhos.

E em mim nada há mais que sonho, em tons pastel e creme dourado. Na minha própria tontura da realidade, quando acordo, sou somente a ilusão que o meu próprio sonho não realizado escolheu de mim. Só os sonhos perdidos, nunca deixam de ser sonhos.

 
I'm just a dreamer but I'm hanging on
Though I am nothing big to offer
I watch the birds, how they dive in then gone 
It's like nothing in this world's ever still... 

 

Relato Íntimo


Olhei pra o tempo. Pensei em tudo que é possível viver, dei-me conta que estava destinada à desgraça de viver com a presença da morte constante,a morte dos momentos bons, a morte da minha voz, a morte de quem eu amo, o falecimento progressivo. Estava fadada à nostalgia. Lembrei-me de quando eu andava por uma estradinha perdida que ligava duas cidades serranas. Havia chovido e tudo estava tomado por um ar inebriante, um odor de pés de bananeira e marmeleiro chegava às narinas, plantas verdíssimas orvalhadas compunham a paisagem, era gostoso de ver. Na minha caminhada avistei uma espécie de pequeno castelo branco, aquilo me despertou curiosidade tremenda. Subi as escadas deterioradas, cheias de galhos e flores molhadas. Os portões estavam quebrados, lá dentro, tudo abandonado. Senti aquela coisa estranha, coisa que se sente quando acha-se algo antigo, perdido, fiquei imaginando o aconteceu naquele local há anos atrás, as pessoas que por lá passaram, agora palmos abaixo do chão.Da sacada observei uma construção antiga, Jesus  crucificado , com o rosto tomado de lodo esverdeado e a expressão melancólica, colunas no estilo romano , em uma placa três retratos antiguíssimo , sob moldura clássica e bronzeada.Atravessei a rua e quando avistei de perto vi que tratava-se de um mausoléu construído em 1941. Lá estava o casal Arruda , primeiro morrera a mulher , dias depois , sem motivo aparente , o marido, e lá foram os dois enterrados.
Acontece que hoje, me veio à mente tanta coisa. Na verdade, pensei nos meus romances que nunca acabavam, na prisão que vivemos, em como o mundo castiga a gente. Precisei deitar a cabeça no travesseiro e chorar feito criança, não aconteceu nem um evento que me abalasse especificadamente, mas algo me dói fundo. Por impulso, senti necessidade de uma dor física, e comecei a morder o lábio superior e a arranhar as cochas. Foi dor, prazer, tristeza. Eu ouvia uma música que falava de desespero,  a voz doce de Morrissey cantava:

And I know it's over - still I cling
I don't know where else I can go
Over and over and over and over
Over and over…
I know it's over
And it never really began
But in my heart it was so real

Senti-me exatamente assim,
sabendo que acabava, acabava, acabava… Cacos que refletiam um ser que carregava todas as mazelas em si. Tomei toda a cama para mim e joguei os cigarros ao chão.

It's so easy to laugh
It's so easy to hate
It takes strength to be gentle and kind
Over, over, over, over

Começou a tocar alto. Eu já havia ouvido aquela canção. De repente senti-me flutuar em um lago, um lago no meio de um jardim de Monet. Senti-me moçoila nos anos 30, com toda a pureza e inocência que uma moçoila de 30 carrega no coração. E flutuei por tempos, até que resolvi sair e à beira do lago estavam àqueles sapatinhos de que eu tanto gostava. Bebi uma água límpida em um chafariz disposto em frente a uma casa de portão alto. Tudo como se fosse uma tela de Monet. E senti-me tão bem. E senti a recompensa do sofrimento.
Mas sai do quadro, levantei, olhei no espelho e ao me ver, comecei a chorar novamente. Passou por meu pensamento a imagem do que eu seria daqui a alguns anos, provavelmente o mesmo do que eu sou agora, mas já cansada, acabada, falida. Não deixei o pensamento me assombrar. Entrei pra debaixo do chuveiro, agora sob a melodia de
Morrissey, senti a água escorrendo pela minha face. Morrissey... está entranhado em mim, como o fedor humano.  Não, não posso compará-lo a isto. Como o frescor feminino, sim.

Love is Natural and Real
But not for you, my love
Not tonight, my love
Love is Natural and Real
But not for such as you and I, my love
Oh Mother, I can feel the soil falling over my head

Lá fora, chamavam-me, ignorei. Deixei o chuveiro gotejar e acompanhei o caminho da gota até chegar a minha pele e
tocá-la em arrepio. Dançava a melodia suave e puramente britânica. De uma hora pra outra o pingo engrossou e agrediu-me. Vi que era hora de parar. Nunca acontecera aquilo comigo. Momentos de “crise” costumam perdurar-se, transformar-se em ciclos que não consigo sair. Mas um momento de tranquilidade e êxtase como esse era raro. Senti cada parte do meu corpo. Senti minha mente livre.
Desejei viver em um tempo diferente, cercada por coisas simples, e amar alguém [e principalmente permitir-me]. Havia vivido uma loucura, ou um nirvana, algo que não sei explicar, apenas descrever.
Sinto estar tomando um veneno lento. Ou um remédio de efeito passageiro.

i'm killing myself from the inside out


  I wear black on the outside
Because black is how I feel on the inside

Estava ouvindo essa música. Ela realmente combina comigo. Em últimos tempos, ainda mais… não tenho conseguido sentir amor por ninguém. Eu até tinha tentado há um tempo, mas acho que não nasci pra isso. Ainda mais quando meus planos são logrados pela vida, e por outras pessoas, na realidade. Batalhei por uma coisa que não deu certo em últimos dias. E eu fiquei totalmente arrasada. De um jeito que eu não achei que ficaria. Não, não estou falando do meu livro. Ele continua firme, e acredito que seja a única coisa que me mantém viva ultimamente.
Minha mãe ontem me disse que eu não tenho coração. Acho que ela está certa, eu já cansei de simplesmente… sentir. Não estou dizendo que não gosto dela ou do meu pai. Gosto deles! Mas já cansei de sentir, já cansei, só.
Acho que são tons de cinza – nada a ver com aquele livro, ok? –, existe o preto, que seria algo concreto. Algo não só obscuro como vivo. O branco, este sim inexistente o bastante para ser morto. E o cinza, que seria um pouco dos dois… acredito que estou em um tom de cinza. E aceito isso!
Estou aqui ouvindo Smiths, escrevendo um pouco, querendo ter algum poder sobrenatural de mudar a vida de algumas pessoas, a morte de algumas delas, querendo reverter algumas situações. 
Tem sido bem difícil, só…

~ sometimes a song


Everybody's greeeeeeeeeeeeen
Cause I'm the one who won your love
But if they'd seeeeeeeeeeeeeen
You talking that way
They'd laugh in my face.

So please listen to me if you want to stay mine
I can't help my feelings i'll go out of my mind
I'm gonna let you down
And leave you flat 
(Gonna let you down and leave you flat)

Because I told you before
Oh, you can't do that

these changes ain't changing me, the cold hearted girl I used to be...

Estou mais fria.
Nem mesmo quando passas a tua mão pelo meu corpo a minha pele aquece com o toque.
Acho que perdi alguma coisa. Não sei se foi o sorriso nos lábios ou o brilho no olhar, mas sinto-me diferente, estranha. Sinto-me… longe. Há tanto tempo que não me sentia assim.
Algo em mim mudou. De forma irreversível.

Estou tão fria. Meus dedos são como navalhas sobre sua pele. Ou, eu deveria mentir e dizer que te acaricio de forma robusta, meu caro. Ah, tenha piedade… eu jamais seria quente, não o bastante.

sempre uma canção ~


 
Conversion the software version seven point oh
Looking at life through the eyes of a tire hub
Eating seeds as a pastime activity
The toxicity of our city, of our city

You, what do you own the world?
How do you own disorder, disorder
Now, somewhere between the sacred silence
Sacred silence and sleep
Somewhere, between the sacred silence and sleep
Disorder, disorder, disorder

- SOAD -